Quem fala o que quer…
Ser moderado em uma crítica jornalística sobre performances de artistas contemporâneos é um desafio. O repórter é sempre compelido a apresentar explicações aos leitores.
Um tipo de leitor se contenta com uma análise subjetiva e introspectiva do jornalista responsável pela matéria, que tende entre ser hermética e direcionada aos já iniciados em arte, ou ser carregada de clichês e discursos vazios que no fim das contas não dizem nada.
O outro tipo de leitor é o que acha que consumindo cultura está subindo de status social, e assim, lê vez ou outra um caderno de cultura de algum jornal, ou as últimas páginas das revistas semanais em busca de informações objetivas sobre certo filme, livro ou exposição.
Isso torna o trabalho do jornalismo cultural complicadíssimo, pois nem sempre há informações objetivas a dar. A tarde performática da segunda edição do SPA das artes em Recife, no último dia 11/09 foi um exemplo claro. As intervenções (termo que os iniciados usam para performances que interagem com o ambiente), que tiveram palco no Pátio de São Pedro, foram dos artistas mais obtusos e experimentalistas do evento. Nessa hora da tarde as centenas de pessoas que passam pelo local testemunharam cenas que só posso chamar de insólitas.
A silhueta de um corpo desenhada no chão, coberta de milho (que imagino, era para os pombos que rondam ao pátio, mas estes não demonstraram o mínimo interesse), um mural coberto de cartas gigantes pintadas que trazia mensagens nonsense, um velho usando máscara de gato e posando para fotos com várias noivas improvisadas retiradas da “platéia” e uma pedra enorme no meio da praça que passa a ser atingida por seguidos golpes de facão pelo performista responsável, que por sua vez, durante a “performance” tem a axila bizarramente cheirada por um cidadão desconhecido de todos no local.
Clique para visualizar (fotos retiradas do site oficial do envento)
Foi exatamente isso que aconteceu. Uma descrição simplista? Sim. Mas como vou por no papel todas as desculpas esfarrapadas estratégias de fuga ditas pelos artistas em suas “explicações”?
Todos, invariavelmente, falaram que o desenrolar dessas obras é uma maneira de extirpar chagas e agonias internas, são críticas a uma sociedade compulsiva e que o homem tem que se redescobrir. Os órgãos de imprensa presentes faziam caras sérias e tinham uma postura sisuda, quase como se estivessem entendendo (ou gostando), mas os transeuntes estavam claramente confusos, coisa que desagradou os artistas.
Sérgio Vasconcelos, o artista das facadas na pedra, foi o único que externou essa insatisfação, dizendo que arte é tão desvalorizada no nosso país que as pessoas têm até preguiça de pensar nela. Será mesmo? Será que uma pessoa que está preocupada com o dinheiro da passagem, com a viagem de metrô e com a conta de luz atrasada vai parar para refletir sobre as “chagas internas” de um desconhecido esfaqueando uma pedra?
Os artistas contemporâneos, como é o caso de Daniel Santiago, João Manoel Feliciano, Paulo Meira e outros envolvidos na tarde performática não querem escrever uma bula para ser lida na demonstração de cada obra, mas ao mesmo tempo reclamam de não serem compreendidos.
Não quero sugerir aqui que eles passem a criar uma arte óbvia, mas se alguém achar uma noiva de biquíni tirando fotos com um senhor com bigode de gato apenas “engraçado”, nenhum artista pode reclamar. Eles têm que saber o que os espera ao participar de um evento tão anacrônico em relação à realidade em que foi inserido.
obs. juro que tentei arrumar muitos links para compor esse texto, mas não teve jeito. O assunto é espinhoso para muitos. Só achei dois outros bons posts sobre o assunto:
- SPA das Artes 2008, por Fernando Machado
- SPA das Artes em imagens, via Portal Dois Pontos (excelente, aliás)
Posts que tem a ver com esse (ou não)
- [OPINIÃO] Arte Contemporânea (de cu é rola) (10)
- [ARTE?] Um breve olhar sobre a nudez de Spencer Tunick (13)
- [CINEMA] SEM FIO – O Filme (11)
- [BODY ART] O limiar entre a arte e o bizarro patológico (15)
- [COMO ASSIM?] Rock in Rio Lisboa e o clichê (14)














Arte desse tipo tenho desprezo.
Arte não tem que ser explicada, tem que ser sentida, se não for sentida não é arte, é lixo.
Logo, arte de verdade não precisa de explicação, se o autor precisa de “bula” em sua expressão artística é porque não é artista, mas apenas um louco, arrogante ou idiota.
Quem sabe os três.
Partilho da sua visão de arte. =)